Sobre
picolé, alma e ondas.
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Fernanda sempre quis sair do lugar. Mas, Fernanda sempre teve medo de sair da estabilidade e arriscar sua vida em um caminho totalmente incerto. |
Fernanda estava sentada no seu lugar preferido da praia...Aquela praia que ela costumava ir quando era criança,mas,desde que lhe disseram que ela era “crescida”, a única praia que ela via era aquela do descanso de tela do seu notebook.Parou,então,para pensar: Será que a criança que sentou nesse mesmo lugar há anos atrás está contente com o que ela se tornou? Então,ela chorou. Chorou porque teve a sensação de que estava tudo errado, apesar de que todos que analisassem sua vida iriam dizer que tudo estava certo: ela tinha um trabalho estável e o marido que todos sempre a disseram que era o ideal. No entanto, ela percebia agora o que ela sempre soube, mas achava bobo demais para uma mulher tão “crescida” como ela.
Um dia, a pequena Fernanda
estava caminhando pela praia e conversava com o vendedor de picolé - eram velhos amigos, ela nem gostava muito
de doces, mas a doçura daquele senhor a fazia pedir milhares de vezes um
dinheiro para a mãe-, ao mesmo tempo em que abria o picolé, ela dizia para
eles de todos os seus sonhos, tão grandes que mal cabiam nela: tinham que ser
soltos para o mundo.
“-O
senhor acha que é possível? - Fernanda perguntou, apertando os olhos contra o
sol para encontrar o olhar do seu amigo.
-Claro,
minha menina! A vida é feita para ser leve, todos que não ousam acreditar nos
seus sonhos ficam com uma alma tão pesada que mal conseguem andar por ai de
cabeça erguida.”-ele disse,com tanta sabedoria que ela lembra de ter desejado
que toda a praia parasse por um momento e ouvissem que ele tinha muito mais a
dizer além de “Picolé!! Olha o Picolé!.
-Alma?
O que é alma?-foi tudo que ela pensou em dizer.
-Alma
é tudo aquilo que nos guia nessa vida. Mas, só consegue descobrir o mundo
aquelas pessoa que escutam a sua alma e a mantém sempre viva.
-O
que faz a alma morrer?-indagou a menina, afastando o sorvete da boca por um
momento.
-A
vida. -ele disse, enquanto arrumava a alça da sua bolsa de picolés no ombro e
seguia pela praia.
-Espera
ai! Você precisa me explicar melhor isso,a vida não é totalmente o oposto da
morte?-disse Fernanda, com as mãos na cintura,sem perceber que sujava toda a
sua barriga de picolé,ela tinha coisas mais importantes para resolver agora.
-Bem,isso
depende...- disse o vendedor,ajoelhando na altura dos olhos da menina-A vida é
tudo que você fizer dela,use os seus sonhos para iluminar a sua alma e criar a
sua vida,quando você pensar que está tudo errado e que não tem nada,você ainda
terá os seus sonhos.Acredite que para eles existirem fora de você,é preciso que
você acredite que isso seja possível,faça isso e o mundo será seu,menina!-dito isso,
ele pegou um pano que estava em seus ombros e limpou carinhosamente a barriga
da menina, ela apenas assentiu para ele.”
Hoje,
sentada na beira da praia, Fernanda pensava no que aconteceu com aquele
senhor.Mas,acima de tudo,ela pensou no que aconteceu com ela...Em que momento
ela deixou de iluminar a sua alma com seus sonhos? Ela sabia a resposta: o momento em que “uma barriga suja de
sorvete” tornou-se mais importante do que tudo que ela tinha dentro dela.Pouco
a pouco,as dificuldades da vida a forçaram a tomar as decisões corretas para a
sociedade,para os outros pouco importava uma alma doente se a sua “barriga”
estivesse limpa e apresentável.Pouco a pouco,ela foi percebendo que a vida foi
cada vez mais se parecendo com uma praia vazia e cheia de ondas que pareciam
acertá-la a qualquer momento se ela ousasse parar de se preocupar com o que os
outros pensariam e decidisse viver seus sonhos,alimentar a sua alma.Fernanda,então,se
levantou bruscamente e foi em direção ao mar.
Parada,
sentimento a água bater em seu corpo e algumas vezes fazer com que ela perdesse
o equilíbrio,ela constatou que já sabia nadar.E que ela passou a sua vida toda na
“beiradinha”,com medo de ser atingida por uma onda,mas que agora ela percebia
que talvez fosse isso que o vendedor quisesse transmitir para ela: não faz mal ser derrubada por uma onda,se
você continuar nadando na direção dos seus sonhos,eles são tudo o que você
precisa para não afogar,acredite neles e eles se tornarão a sua boiá
.
Ela
quase podia ouvir o som do senhor falando essas palavras para ela,não sabia de
onde vinha..Talvez,como ele gostava tanto de dizer,viesse da alma.Ah! A alma! Ela
fechou os olhos e se perguntou se ela ainda estava lá, com um pouco de esforço
Fernanda percebeu a menina suja de picolé sempre esteve dentro dela,ansiosa pela
momento que ela poderia ter aquilo que o vendedor a prometeu: o mundo.Por um
momento,Fernanda arregalou os olhos e pensou que “o mundo” era muita coisa,mas
a criança era incansável e cutucou a alma de Fernanda mostrando,mais uma
vez,que nós somos muita coisa.Nossos sonhos são muita coisa e o mundo é o
cenário perfeito para eles existirem.
Agora,Fernanda
estava boiando pelo mar.Por um momento,ela olhou ao redor e percebeu que a
praia se parecia com o lugar que ela esteve quando pequena...Agora,as ondas
estavam calmas e levavam o seu corpo para um lugar que ela não sabia qual
era,mas,por algum motivo,já se sentia em casa antes mesmo de chegar lá.Ela
tentou imaginar porque,de repente,tudo se acalmou...
“Essas coisas,as leis da física não
explicam,menina! O mundo é do jeito que você olha para ele,agora você deixou o
olhar daquela menina sobressair e ela vê tudo colorido e sereno,transformando tudo o que vê.” Ah!
Como era bom ouvir a voz daquele senhor.Fernanda pensou se ele sempre esteve
dentro dela,provavelmente sim,ela mentalmente pediu perdão por ter calado
tantas vezes a sua voz interna.Molhada retornando para a areia,Fernanda se
sentiu como aquela menina suja de sorvete de novo e notou que nunca se sentiu
tão limpa na vida.Talvez fosse conseqüência daquele negócio que o senhor
gostava tanto de falar....A alma limpa.
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